<<<AMIGOS VIRTUAIS>>>

"Amigos virtuais: estudo antropológico sobre sociabilidade na Internet."

Jonatas Dornelles

Porto Alegre, novembro de 2000.

RESUMO

O sentimento de solidão e a busca por relacionamentos amorosos são fortes motivadores da utilização de chats de Internet por usuários de computadores. A conduta no chat está atrelada ao tipo de usuário. A interação social que ocorre nesses ambientes virtuais gera a formação de redes sociais. Inicialmente estabelecida no modo on-line, a rede pode extrapolar os limites do chat, sendo praticada também no modo off-line.

 Palavras-chave: cibercultura, sociabilidade, Internet.

 

ÍNDICE (clique no asterisco e vá direto para o capítulo)

 

AGRADECIMENTOS*

INTRODUÇÃO*

TIPOS DE NAVEGAÇÃO NA INTERNET*

METODOLOGIA*

O QUE HÁ NO CHAT CONEX*

TIPOS DE USUÁRIOS, CONDUTAS E NICKS*

QUESTÕES TEÓRICO-CONCEITUAIS*

VIRTUAL, CIBERESPAÇO E CIBERCULTURA*

SOCIABILIDADE, NETWORK*

COMUNICAÇÃO*

JUVENTUDE, FICAR, NARCISISMO*

A PESQUISA NA REDE*

ENTREVISTA COM "JEANE"*

ENTREVISTA COM "TIFANY"*

ENTREVISTA COM "SR.DESTINO"*

PRÁTICA DA REDE NO CHAT*

O CHAT COMO PONTO DE ENCONTRO*

SINCERIDADE NO CHAT*

HISTÓRIA/MEMÓRIA DA TURMA*

RECRIAÇÃO DIÁRIA DO CHAT*

CONFLITOS NO CHAT*

REGIONALISMO*

EXISTÊNCIA DE OUTRAS TURMAS, TRÂNSITO ENTRE ELAS*

A PROCURA POR RELACIONAMENTOS AMOROSOS*

CONSIDERAÇÕES ANALÍTICAS*

CONCLUSÃO*

BIBLIOGRAFIA*

 

AGRADECIMENTOS

 

Agradeço a orientação da Professora Cornelia Eckert, que me proporcionou o acesso a uma bibliografia de excelente qualidade e apontou os meus erros durante a elaboração dessa monografia. Também agradeço as conversas com Vanessa Pereira, que compartilhou de sua experiência em relação ao tema da pesquisa, e as conversas com Flavio Silveira sobre a Internet, bem como o seu apoio para que se continuasse pesquisando sobre esse assunto. Agradeço à professora Ceres Víctora, que participou na primeira etapa da pesquisa me incentivando a refletir sobre a representação corporal no ambiente de chat. Também agradeço aos usuários do Chat Conex, que concordaram em relatar parte de suas experiências e manifestar suas opiniões. Agradeço ao Professor Delmar, pela ajuda com o "português", e a Dona Claudete e família, pela torcida. E agradeço à minha mãe, que mesmo pouco se interessando com "sociabilidade, computadores, Internet, chat, etc.", mostrava um "olhar de interesse" que muito me incentivou.

INTRODUÇÃO

 

Essa pesquisa investiga formas de interação social mediada por computadores na formação de uma comunidade virtual. Trata-se de levar em consideração as motivações que levam usuários a acessarem sistemas de conversação por mensagens escritas. Procura-se analisar se a interação social mediada por computadores forma redes sociais que se mantém on-line ou, o contrário, se a interação extrapola os limites do modo on-line, ocorrendo também no modo off-line.

A questão da comunicação via computador é pertinente por estar tendo, contemporaneamente, grande difusão. O fenômeno da Internet atinge atualmente um crescimento aceleradíssimo entre a população. Inicialmente utilizada por usuários de maior poder econômico, passou a ser utilizada pelo segmento de classe média da população. A Internet possibilitou a massificação da tecnologia de transmissão de informações. Aliada a esse processo de massificação existe um movimento social. Esse movimento originado por jovens californianos na década de oitenta (Lévy, 1999) passou a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas nos últimos vinte anos. Esse estudo será feito em um ambiente de comunicação virtual (chat) de Internet dada a importância que esse sistema assume diante da sociedade contemporânea.

A Internet oferece os serviços de conversação por correio eletrônico (e-mail) e por chat. O correio eletrônico possibilita a troca assíncrona de mensagens e arquivos. O chat oferece a troca de mensagens escritas sincronicamente. Em ambos os modos de comunicação é possível ocorrer o fenômeno de interação social. O chat da Internet está localizado em um site e apresenta a interface gráfica da Web, ou seja, é formado concomitantemente pela conversação escrita, imagens gráficas e hipertexto. Diferencia-se, por exemplo, do chat IRC (Internet Relay Chat), que se caracteriza por ser "um sistema de conversa multi-usuário baseado no modelo cliente-servidor" (Pereira, 1999: 11). Neste caso o usuário precisa se cadastrar no servidor antes de utilizar o sistema.

Atualmente existe uma infinidade de chats na Internet que aglutinam seus diversos usuários. Estes utilizam os chats para discutir um assunto específico, bater papo, fazer amigos ou namorar, enfim, interagir socialmente. Esse fenômeno deve ser encarado como fato social. Ele é materializado na quantidade de ambientes de comunicação que proliferam na Internet e no número de pessoas que os utilizam.

No chat de Internet, o princípio do anonimato atinge seu ápice. Por exemplo, no caso do chat #100%_Jesus (Jungblut, 2000), que é um tipo de servidor IRC, o usuário tem um vínculo mínimo (preenche um cadastro). Esse "vínculo mínimo" não existe no caso do chat de Internet. Na tecnologia do chat de ICQ, o usuário também precisa preencher uma ficha para estabelecer a conexão e iniciar a utilização do sistema. No chat de Internet, o usuário não preenche nada. Ele "entra e sai" a hora que quer. Pode até mesmo desconectar e conectar em seguida com outro nome (nick) e outra identidade, e não é possível determinar sua localização geográfica.

A pesquisa analisa a interação social mediada por computador através de um chat de Internet. A escolha por um destes chats é baseada na grande difusão que esse sistema de comunicação via computador tem atualmente, apontando até mesmo no sentido da massificação. O internauta neófito tem maior facilidade de usar esse tipo de sistema. Esse é o seu primeiro passo. Caso queira utilizar um chat de IRC ou ICQ, será um segundo passo. Dar esse passo será realização de poucos e não da grande quantidade de novos usuários que começam a acessar a Internet, comunicando e interagindo socialmente.

Esse é o motivo do estudo privilegiar o Chat de Internet. Sendo um sistema de comunicação escrita inserido na Rede Internet, compartilha de suas características principais: âmbito mundial, descentralizada e de acesso público. A partir dessas características podemos considerar o Chat de Internet como sendo a "porta de entrada" na interação social via computador para a maior parte da população que está gradativamente tendo acesso à essa tecnologia.

TIPOS DE NAVEGAÇÃO NA INTERNET

Pierre Lévy apresenta os dois tipos de navegação e obtenção de informações na Internet: caçada e pilhagem. As duas apresentam-se misturadas. A primeira refere-se ao procedimento de uma pessoa que quer informações precisas o mais rapidamente. A segunda caracteriza o comportamento do internauta que vai "de link em link, de site em site" recolhendo informações, podendo ser desviado a qualquer instante (Lévy, 1999:85).

Comparo a classificação de Lévy à procura de "amigos virtuais" no ciberespaço. A caçada seria aquele tipo de procura onde o internauta busca amigos com afinidades em sites especializados. A pilhagem ocorreria em chats de conversação, onde o internauta estabelece contado com uma série de outros internautas, podendo ser desviado a qualquer momento.

Sobre o ato de "fazer amigos" (processo de formação do laço de afinidade social) na Internet Marcos Palácios contribui opondo a "maneira tradicional" à "maneira da Rede" (Palácios, 2000). Na maneira tradicional o indivíduo procura a existência de afinidades entre seus conhecidos, seus próximos: colegas, vizinhos, etc. Manifestando suas opiniões e sua personalidade o indivíduo cria os laços de afinidade. Em uma comunidade virtual ocorre o inverso. Ao contrário da maneira tradicional onde primeiramente ocorre a aproximação e em seguida o estabelecimento do laço, na Rede (ciberespaço) primeiro vem o laço, ou seja, o estabelecimento de afinidades entre dois ou mais indivíduos. O que confere "dez vezes" mais chances de se "fazer amizades" no ciberespaço do que na maneira tradicional segundo esse autor (Palácios, 2000).

Palácios indica que há um crescimento quantitativo na realização de laços de amizade através do ciberespaço (Palácios, 2000). Esse crescimento quantitativo foi comentado por informantes do presente estudo. No entanto, foram feitas nas entrevistas, com regularidade, menções no sentido do crescimento qualitativo dos laços de amizade estabelecidos no ciberespaço. Os informantes mencionaram que os laços de afinidade estabelecidos no ciberespaço são mais "sinceros", por exemplo.

 

 

METODOLOGIA

Por existir um número muito grande de chats na Internet, apenas um deles foi selecionado para ser acompanhado. A partir de observações preliminares foi constatado que diversos chats são divididos por "assunto específico", ou por "assunto livre". A análise recaiu sobre um chat de "assunto livre" por entender que dessa forma as temáticas estariam em constante criação e possibilitariam demonstrar mais claramente as prioridades da comunidade virtual em estudo.

O ambiente onde está localizada essa comunidade é o Chat Conex (sala de bate-papo livre do Provedor de acesso à Internet Conex – Porto Alegre). Seu endereço eletrônico na Internet é <http://www.conex.com.br/chat>. É um chat de Web muito simples tecnicamente. Não tem salas divididas por afinidades de temas, como existe em outros chats em outros provedores de Internet. Esse foi o motivo para a escolha: a heterogeneidade do seu público usuário e a não vinculação prévia de nenhum tema ou assunto de discussão. A metodologia utilizada para a coleta de dados foi de "interação virtual com usuários" e "entrevistas virtuais":

Interação Virtual com Usuários – Nos chats os usuários podem conversar "no aberto" ou "no reservado". No primeiro caso todos os usuários do chat podem ver e ler a mensagem de um único usuário, que pode se referir a todos, ou a outro usuário especificamente. No segundo caso a mensagem é enviada reservadamente ao destinatário e somente os dois a vêem e lêem. Esse tipo de coleta de dados tratou de acompanhar a comunicação que ocorre entre os usuários, através do modo "aberto".

Entrevistas Individuais/Virtuais no Próprio Ambiente de Chat – Esse tipo de coleta de dados usou o modo "reservado". O usuário foi entrevistado no próprio ambiente de chat a partir de um roteiro de questões pouco rígido, o que possibilitou liberdade ao pesquisador para trabalhar questões que o entrevistado considerasse de maior relevância. A coleta de dados ocorreu no período da noite através da utilização de um computador pessoal do próprio pesquisador, entre os meses de abril a outubro de 2000.

O QUE HÁ NO CHAT CONEX

Neste subcapítulo é apresentado o "cenário" (local) que está sendo estudado. A interface do site possui uma janela que possibilita ao usuário acompanhar as mensagens de usuário-para-usuário no "modo aberto", bem como as suas mensagens enviadas e as suas recebidas de demais usuários que foram emitidas no "modo reservado". No "modo aberto" a mensagem enviada aparece no monitor dos demais usuários conectados no chat. No "modo reservado" a mensagem aparece apenas no monitor do usuário ao qual se envia a mensagem.

No rodapé do site há um "formulário" para o envio da mensagem. Nele constam as seguintes informações: nome do remetente (é fixo), nome do destinatário (escolhido livremente em uma lista que apresenta os usuários conectados no momento), comando de ações, "carinhas", espaço para a mensagem (lugar onde se escreve a mensagem e que tem um número limite de caracteres) e botão para enviar. Assim que a mensagem é enviada o formulário tem seus campos de preenchimento limpos e ela é vista na janela das mensagens.

As "carinhas" são um recurso visual presente no "formulário" do site. São seis rostos estilizados que representam emoções diferentes: normal, olho piscando, raiva, susto, indagação e tristeza. É um recurso pouco utilizado pelo conjunto dos usuários. Deve ser escolhida por ocasião do envio da mensagem. A maioria deles utiliza a expressão normal por ser a que aparece caso não haja nenhuma escolha (modo default). No entanto, alguns usuários recorrem às "carinhas".

O usuário tem a possibilidade de escolher a maneira com a qual vai se dirigir a outro usuário, se vai "falar com fulano", "beijar", "sussurrar", "gritar", etc. Por ocasião do envio da mensagem o usuário, além de escolher a "carinha", também tem a possibilidade de escolher a maneira com a qual vai se dirigir (comando de ações). A grande maioria das mensagens são formadas pela ação "fala com", pois é a que está presente mesmo não havendo escolha (modo default).

 

TIPOS DE USUÁRIOS, CONDUTAS E NICKS

Parte da presente pesquisa teve seu início ainda no primeiro semestre desse ano na forma de monografia da disciplina "Antropologia do Corpo e da Saúde". No atual semestre é a sua segunda etapa de coleta de dados. Na primeira etapa tratei de verificar de que maneira o "corpo humano" era representado em uma situação onde ele não está presente.

A comunicação mediada por computador não comporta a presença física. Diferentemente de um grupo de colegas de faculdade em sala de aula ou demais situações do cotidiano, as pessoas que freqüentam o chat se comunicam sem a linguagem corporal. Dessa forma, busquei analisar de que maneira era preenchida essa lacuna.

A principal conclusão obtida nesta primeira etapa da pesquisa foi que a importância corporal (sua imagem) deve ser relativizada segundo o tipo de usuário de chat. A pesquisa mostrou que existem dois tipos básicos de usuários de chat de Web. O primeiro tipo é aquele caracterizado por freqüentar o chat "regularmente". É o usuário que acessa o chat quase que diariamente, dedica um horário do seu dia para essa prática e costuma dialogar com outras pessoas do chat as quais já se comunicou. O segundo tipo é aquele que acessa o chat "eventualmente" ou está acessando pela primeira vez. Ao contrário do primeiro, ainda não "teclou" (conversou, dialogou) com ninguém. Pois, como acessa eventualmente, ou está praticando pela primeira vez, ainda não criou nenhum tipo de vínculo com os demais usuários.

Diretamente associados a esses dois tipos de usuários existem dois tipos de condutas no chat. De um lado temos os usuários regulares que estão inseridos em uma rede de comunicação dentro do chat. Foi observado que pouco se importam com a aparência física e demais características corporais de outros usuários. Utilizam o chat como instrumento para dialogar com seus amigos, com os demais membros da rede. De outro lado estão os usuários eventuais. Neste caso, foi verificado que na maioria dos casos utilizam o chat como instrumento para se encontrarem pessoalmente com outras pessoas.

No ambiente do Chat Conex, a comunicação é efetuada a partir da troca de mensagens escritas. No entanto, existe um elemento que é criado única e exclusivamente pelo usuário e contém grande carga comunicativo-expressiva: o nick (Abreviatura de nickname, que em inglês significa apelido.) O nick tem vital importância na criação da personagem e identificação do usuário. É como ele primeiramente "será visto" no ambiente de chat e como será "chamado". É "a tua cara" (depoimento do informante CRIS). Ele lança uma idéia. O seu grau de significados é ilimitado e desse fator alguns usuários se aproveitam no sentido de suas motivações e interesses no chat.

Devido a sua importância no processo comunicativo, tratei o nick como um elemento de análise. Os dados coletados possibilitaram dividir o nick em duas categorias: "nicks que se referem a características corporais" e "nicks que não se referem a características corporais". Airton Jungblut, baseado nos tipos de expressividades individuais de Goffman, categoriza os nicknames segundo a idéia de expressividade: transmitida ou emitida (Jungblut, 2000:135).

Para Jungblut, o nick pode "transmitir", consciente ou inconscientemente, informações objetivas (Jungblut, 2000:135). Como exemplo temos os nicks formados por um nome em conjunto com um número, que no caso é a idade do portador, ou um nome e uma sigla, que significa a cidade natal, etc. O outro caso seria o nick que "emite" idiossincraticamente (Jungblut, 2000:135) a disposição do temperamento do indivíduo, a sua maneira própria de ver, estado de espírito, maneiras de sentir e reagir. Com relação aos nicks, Palácios se refere à imagens híbridas que são criadas no processo de sociabilização via computador (Palácios, 2000).

No caso do Chat Conex o tipo de nick (que se referem ou não à características corporais) é resultante do tipo de usuário (regular ou eventual) e sua conduta. Os usuários eventuais costumam associar ao nick signos corporais. Além disso, procuram expressar suas imagens corporais no discurso (apelam regularmente para questões corporais em suas mensagens). Valorizam essa forma de representação mais "explícita" do corpo. Os usuários regulares constróem uma representação corporal mais "implícita". Criam sua imagem no ciberespaço através da elaboração de uma maneira de agir própria (jeito) e de uma identidade.

Pereira trabalha os conceitos de corpo-bit e corpo-átomo (Pereira, 1999:15). Basicamente, a diferença entre um e outro estaria no seu espaço de utilização. No Chat Conex, enquanto que para os usuários eventuais há uma certa dependência do corpo-bit com relação ao átomo, os usuários regulares libertam o corpo-bit que é criado no ciberespaço.

O resultado dos dados já coletados mostrou que a falta da presença do corpo no espaço virtual gera a utilização de símbolos, discursos e imagens que remetem à presença real e física do corpo humano no processo de sociabilidade via computador. No entanto, também estimula a produção de formas alternativas de linguagem e comunicação que não se remetem diretamente ao corpo humano, mas o recria no ciberespaço.

Dessa forma, a imagem corporal é representada de duas maneiras no chat: a) explicitamente - através da utilização de signos físicos do corpo humano na interação no chat, nas mensagens enviadas e no nick; e b) implicitamente - através da criação de um corpo "ciberespaciano" que é baseado no "jeito" de interagir no chat, se comunicar com os demais usuários, escrever, expressar, etc.). O tipo de representação depende, em última instância, das motivações do usuário.

Na etapa da pesquisa realizada no primeiro semestre desse ano prevaleceu como método de coleta de dados a interação virtual no chat. Nessa etapa foi possível, além de formular as conclusões citadas, "mapear" a rede social que freqüenta o chat regularmente. Essa etapa possibilitou avançar para a presente pesquisa (segunda etapa, no segundo semestre desse ano). Tratando, agora, da interação social realizada via computador, mais especificamente das motivações que levam o indivíduo a optar por esse sistema e permanecer utilizando.

 

QUESTÕES TEÓRICO-CONCEITUAIS

A presente pesquisa está inserida em uma corrente de estudos de Antropologia e Novas Tecnologias sobre o tema que atualmente vem sendo problematizado a partir de noções como "ciberespaço" e "cibercultura".

VIRTUAL, CIBERESPAÇO E CIBERCULTURA

A característica principal para se compreender o virtual está nele ser um processo que rearticula as noções de espaço e tempo. Embora ser constantemente, nos dias de hoje, associado à tecnologia informática, seu surgimento data do surgimento da espécie humana. A humanidade surgiu a partir desse processo de virtualização, segundo Pierre Lévy (Lévy, 1996). Para ele "a espécie humana emergiu a partir de três processos de virtualização: desenvolvimento das linguagens, multiplicação das técnicas e complexificação das instituições" (Lévy, 1996:71). A linguagem virtualiza o "tempo real". Às ferramentas coube a virtualização da "ação" (Lévy, 1996:75), ou seja, do corpo e do ambiente físico. Com o crescimento das relações sociais surge a "virtualização da violência" (Lévy, 1996:77), que trata de ordenar o conjunto de forças e impulsos existentes na sociedade humana.

Sintetizando a idéia de Lévy:

"Através da linguagem, a emoção virtualizada pela narrativa voa de boca em boca. Graças à técnica, a ação virtualizada pela ferramenta passa de mão em mão. Do mesmo modo, na esfera das relações sociais, pode-se organizar o movimento ou a desterritorialização de relacionamentos virtualizados." (Lévy, 1996:77)

Outra característica do virtual é não estar em oposição ao real. Pierre Lévy considera o virtual como o oposto do atual. Critica a oposição vulgar entre virtual e real. Pelo contrário, "a virtualização é um dos principais vetores da criação de realidade" (Lévy, 1996:18), sendo que quase sempre não está presente. Essa seria a primeira característica específica do virtual. No caso de uma comunidade virtual essa característica fica clara ao lembrarmos que há uma desterritorialização. O grupo existe, seus projetos, afinidades e interações sociais, mas não está presente no aqui e agora, não tem lugar estável.

Por não ser estável pode estar presente em qualquer lugar a qualquer hora. Sendo essa a segunda característica do virtual: tempo e espaço são substituídos, respectivamente, por interconexão e sincronização. O resultado imediato é o surgimento da cibercultura, que deve ser considerada "como ‘movimento social’ liderado pela juventude metropolitana escolarizada e guiado pelas palavras de ordem: interconexão, criação de comunidades virtuais e inteligência coletiva" (Lévy, 1999:123).

Lévy trata da junção entre tecnologia e sociabilidade resultando na cibercultura. Para ele a essência paradoxal da cibercultura é a sua "universalidade sem totalidade" (Lévy, 1999:111). O ciberespaço tende à universalização, como ocorreu, por exemplo, com os automóveis, aviação, eletricidade, etc. O autor argumenta que isso se deve ao fato de "constituir a infra-estrutura de comunicação e coordenação dos outros grandes sistemas técnicos e por estar a serviço de outros fenômenos tecno-sociais que tendem à integração mundial: finanças, comércio, pesquisa científica, etc." (Lévy, 1999:113). No entanto, a medida em q

ue o ciberespaço se universaliza, mais tende a ficar "sem conteúdo", mais vazio, sem totalidade. O ciberespaço não tem um significado central. O que se traduz em seu caos e (aparente) ausência de regras.

Pierre Lévy apresenta, como características técnicas do ciberespaço, o acesso a distância aos recursos de um computador (fornece uma potência de cálculo); a transferência de dados (upload); o correio eletrônico, vantagem de ter o texto digitalizado, sem passar pelo papel, tendo a possibilidade de ser enviando a um número imenso de pessoas sem a utilização da fotocópia ou o telefonema para todos; a realização de conferências eletrônicas (no chat são inventados novos estilos de interação e escrita), na Internet são chamados de newsgroups, onde "o ciberespaço torna-se uma forma de contatar pessoas não mais em função de seu nome ou de sua posição geográfica, mas a partir de seus centros de interesse" (Lévy, 1999:100); groupware. Lévy apresenta a idéia de que estamos diante de mundos virtuais multiusuários (Lévy, 1999).

Para Luiz Antônio Rocha o novo tipo de sociabilidade via computador acarreta alterações nas formas de sociabilidade entre indivíduos e grupos. Transforma suas noções de tempo e espaço (Rocha, 1996). Esta proposição está de acordo com o conceito genérico de virtual proposto por Lévy. O grupo que está passando por essas transformações é o urbano de sociedades complexas modernas industriais.

Uma característica importante do ciberespaço, apresentada por Rocha, é a possibilidade que o indivíduo tem de escolher seu papel (Rocha, 1996). Não fica exposto, é representado pelo seu imaginário. O indivíduo tem o poder de estar, através da Internet, presente em todo o mundo. Da mesma forma que todo o mundo pode acessá-lo, pois ele tem um lugar só seu.

Rocha lembra do "sentido místico" do ciberespaço. Ele decorre fundamentalmente do fato de nossas leis ordinárias (do mundo off-line) não terem validade no lado de lá – on-line (Rocha, 1996). De haver um certo estado de falta de regras ou pelo menos, de haver outras regras. Rocha também faz menção à inexistência da fisicidade humana no ciberespaço. O computador fica sendo uma "prótese do indivíduo" (Rocha, 1996:8). Um equipamento melhor, que tem um componente de fetichismo e fascinação. Ele possibilita um relacionamento melhor na rede. Pode ser diretamente responsável por uma comunicação melhor, qualitativa e quantitativamente. Pode ser comparado ao universo competitivo masculino, onde há a necessidade, em certos casos, de se ter o melhor carro, o mais veloz, etc. (Rocha, 1996:8). No ciberespaço, para Rocha, existe um desligamento do corpo. Ele se refere a uma nova cultura baseada na trindade de elementos: usuário, portal e ambiente de existência momentânea (Rocha, 1996 ).

Para Airton Jungblut há uma perda de referencial no mundo on-line. Há uma certa fragmentação do eu no mundo on-line (que já era constatado no mundo off-line). Tempo e espaço tornam-se irrelevantes no mundo ciberespacial (Jungblut, 2000). Para esse autor, no mundo ciberespacial há uma potencialização das ações individuais e a aproximação do indivíduo com "poderes mágicos". A possibilidade que se tem de ir e vir em segundos a distâncias que antes eram quase intransponíveis, buscar informações instantâneas e viver várias identidades faz com que o indivíduo tenha poderes de onipresença, onipotência e onisciência.

Outra importante característica do mundo on-line é a valorização do anonimato. "...o anonimato é um dos princípios mais valorizados em sociabilidade via Internet" (Jungblut, 2000:137). No chat estudado por Jungblut ("Cem Porcento Jesus") os usuários recusam o anonimato em grau mais elevado do que o geralmente observado nos demais chats. O motivo explicativo a esse comportamento tem origem no mundo off-line: "como cristãos não devem mentir e não devem ter nada a esconder" (Jungblut, 2000:137).

Outra consideração importante a ser feita ao movimento social da cibercultura é a "transnacionalidade". Para Lins Ribeiro os conceitos de espaço e território, em um atual contexto de desterritorialização, fragmentação, globalização de capitais financeiros e industriais, migrações transnacionais, massivos fluxos planetários de informações, devem ser repensados (Ribeiro, 1995:119). Esses dois conceitos são centrais nos modos de representar pertencimento a unidades sócio-culturais e político econômicas.

Segundo Ribeiro a transnacionalidade é resultante dos processos de formação do ciberespaço e da cibercultura (Ribeiro, 1995). O núcleo da comunidade transnacional é a virtualidade, um processo que traz a organização dos membros de comunidades imaginadas, suas relações com instituições de poder, reformulações de identidades e subjetividades e das relações nas esferas pública e privada. Ribeiro denomina essa nova fase mundial de "capitalismo eletrônico-informático" (ambiente da transnação):

"A difusão de novas tecnologias traz à luz dois regimes de sociabilidade: a tecnossociabilidade e a biossociabilidade, que "encarnam a consciência de que cada vez mais vivemos e nos fazemos em meios tecno-bioculturais estruturados por novas formas de ciência e tecnologia." (Ribeiro, 1995:122)

A contemporânea comunidade transnacional é, segundo Lins Ribeiro, imaginada e virtual. O conceito de virtualidade é feito em contraposição ao de imaginação. O primeiro é feito a partir de um suporte tridimensional gerado tecnologicamente (por computador, no caso). É possível a "entrada" e "saída" do mundo virtual a qualquer momento, o que não ocorre com a imaginação, que foge ao nosso controle. Para o autor, a imaginação tem uma base empírica sobre a qual se eleva a virtualidade e busca-se o real.

A diferença entre comunidade imaginada e virtual, segundo Ribeiro, está em toda comunidade ser imaginada, pois sempre parte da mesma base cultural e lingüística que possibilita a comunicação e interação. A virtualidade e sua base técnica de comunicação conferem um sentido mais concreto às comunidades imaginadas.

Para Ribeiro a transnacionalidade, pensada como comunidade transnacional imaginada-virtual, traz a virtualidade e seu papel em processos de comunicação e na construção de subjetividades influenciadas pela troca de informação (Ribeiro, 1995:129). Também contribui para o surgimento de novas formas de fetiche e de poder e para a emergência do inglês de computador como língua transnacional. Na opinião desse autor a virtualidade e o processo de formação do ciberespaço têm como processos paralelos a desterritorialização e a fragmentação de identidades. Esses processos geram a perda de eficácia de formas de representar a relação entre território e pertencimento sócio-político-cultural. Também gera a "transformação ritual da comunidade transnacional virtual e imaginada em comunidades reais, temporárias, como ocorre em megarritos de passagem do sistema mundial como os grandes concertos de rock ou as conferências da ONU" (Ribeiro, 1995:129).

SOCIABILIDADE, NETWORK

Até aqui foram feitas considerações sobre os conceitos de virtual, ciberespaço e cibercultura, sempre com ênfase no novo processo de comunicação e sociabilidade associados à nova tecnologia informática. Cabe agora trabalhar o conceito de sociabilidade que será aplicado. Utilizarei as considerações feitas por Georg Simmel, citadas por Gilberto Velho, por se aproximarem do objeto de estudo. Mais especificamente por ser o Chat Conex uma "Network" no sentido apresentado por Gilberto Velho.

Velho, baseado no pensamento de Simmel, coloca que a sociabilidade não está presa a interesses específicos:

"Mas acima e além de seu conteúdo específico, todas essas associações estão acompanhadas por um sentimento positivo, por uma satisfação pelo próprio fato de se estar associado a outros e de a solidão do indivíduo ser resolvida através da proximidade, da união com outros". (Velho, 1986:13)

Para Simmel a sociabilidade parece ter um fim em si mesma. Velho apresenta a distinção entre cultura subjetiva e cultura objetiva presente na obra de Simmel. A primeira deveria ser entendida, a princípio, como sendo "totalidade", cujo aperfeiçoamento passaria pela busca de harmonia entre as diferentes potencialidades, capacidades, características. O avanço tecnológico trataria de impedir o surgimento de culturas subjetivas mais elaboradas. Simmel trata a cultura subjetiva como sendo resultante da objetiva, que estaria fora do indivíduo, ao passo que a primeira é a extensão psíquica das realizações objetivas.

Velho, ao apresentar seu grupo de pesquisa (membros das camadas médias superiores, residentes na Zona Sul do Rio de Janeiro) conceitua "rede social" de uma maneira bem ampla: "na medida em que quase todos estão relacionados, mesmo que indiretamente" (Velho, 1986:22). Segundo Velho:

"Dentro do universo da pesquisa por outro lado, encontro, eventualmente, grupos de indivíduos que interagem de forma regular e que chegam a se autodefinir, em certos casos, como grupo." (Velho, 1986:22)

Uma das principais características das sociedades complexas, em sua opinião, é o fato dela ter vários estilos de vida e visões de mundo convivendo ao mesmo tempo. Velho descreve um acontecimento que demonstra empiricamente a afirmação acima. Na Zona Sul do Rio de Janeiro ele presenciou uma possessão. Um "preto velho" "baixou" em um senhor na rua e isso gerou certa aglomeração de pessoas. O acontecimento gerou o agrupamento de pessoas de classes sociais diferentes, de segmentos etários diferentes, de taxistas, funcionários públicos, donas de casa, enfim, de pessoas de distintas categorias sociais. No entanto todos estavam ali por um interesse comum, ou seja, a possessão do "preto velho":

"Enquanto estiveram juntos compartilharam do mesmo interesse, tinham um foco comum de atenção e suspenderam, ou adiaram, outras atividades e compromissos. Compartilharam, por algum tempo, de uma definição comum de realidade, operaram na mesma província de significado, nos termos de Alfred Schutz. Interagiram através de uma rede de significados, conforme a definição de Geertz. " (Velho, 1994:17)

O exemplo do "preto velho" mostra a formação de um grupo com ação coletiva organizada e com uma rede de significados (linguagem) comum e zelando por um certo anonimato. Além da participação de indivíduos de categorias sociais diferentes. No fato narrado por Velho ouve o surgimento de duas lideranças momentâneas. Naquele momento houve uma "negociação da realidade" (Velho, 1994:12).

Naquele momento estava materializada uma "Rede de Relações": networks. Para Velho essas redes atravessam o mundo social na forma horizontal e vertical. Ou seja, as categorias família, parentesco, bairro, vizinhança, origem tribal e étnica, status, classes sociais não são definidoras totais de grupos:

"Registravam-se circulação, interações sociais associadas a experiências, combinações e identidades particulares, individualizadas. O mercado e o trabalho, a vida política com suas transformações são, sem dúvida, fatores estimuladores dessas "travessias sociológicas" com maiores ou menores custos individuais e sociais." (Velho, 1994:21)

Segundo Velho, Max Gluckman trata da fragmentação das relações e dos papéis sociais em nossa sociedade. Os indivíduos podem transitar por vários domínios, e variar o seu grau de adesão. Dessa forma, "na sociedade complexa, particularmente, a coexistência de diferentes mundos constitui a sua própria dinâmica" (Velho, 1994:27).

No entanto, é importante que fique claro que existe uma "identidade vinculada", pois:

"...os indivíduos, mesmo nas passagens e trânsito entre domínios e experiências mais diferenciadas, mantêm, em geral, uma identidade vinculada a grupos de referência e implementada através de mecanismos socializadores básicos contrastivos, como família, etnia, região, vizinhança, religião, etc. A tendência à fragmentação não anula totalmente certas âncoras fundamentais que podem ser acionadas em momentos estratégicos. Por outro lado, a fragmentação não deve ser entendida como um estraçalhamento literal do indivíduo psicológico. O trânsito entre os diferentes mundos, planos e províncias é possível, justamente, graças à natureza simbólica da construção social da realidade." (Velho, 1994:29)

COMUNICAÇÃO

Quando falamos em cibercultura estamos tratando de uma nova forma de sociabilidade, que está associada a uma nova forma de comunicação. Yves Winkin cita Ray Birdwhistell: "Não nos comunicamos, participamos da comunicação". Neste caso está se referindo à comunicação como "performance permanente da cultura" (Winkin, 1998:14). Para o autor a comunicação deve ser entendida como uma instituição social ao invés de um ato individual.

Os termos "comunicar" e "comunicação" (respectivamente communiquer e communication) surgiram na língua francesa na segunda metade do século XIV. Desde então, até o século XVIII, migraram, gradativamente, do sentido de "partilhar" (próximo ao latim communicare = pôr em comum, estar em relação) ao de "transmitir", neste caso, tendo a idéia de "transmitir de um lugar para outro, de A para B, e assim por diante. Como idéia de "transmissão" predominou nas acepções contemporâneas francesas (Winkin, 1998:22-24).

Não podemos esquecer que é no século XVIII que se desenvolvem com mais intensidade os meios de transporte. O termo se refere a estradas, canais e ferrovias. Em meados do século XX, o termo comunicação recebe uma nova carga significativa. Começa a designar as indústrias da imprensa, do cinema e do rádio/televisão. Atualmente, o termo, que parece estar em eterna mutação, recebe carga significativa que o aproxima da tecnologia informática.

"Os atores sociais participam de um sistema onde todo comportamento fornece uma informação socialmente pertinente. Todo gesto, todo olhar, todo silêncio se integra numa semiótica geral" (Winkin, 1998:104). Tanto para Goffman como para Birdwhistell, "nada nunca acontece (nunca acontece em que nada aconteça)" (Winkin, 1998:104). "Ainda que um indivíduo possa parar de falar, não pode evitar de se comunicar pela linguagem do corpo. Ele pode falar ou não a este respeito. Não pode não dizer nada" (Winkin, 1998:104).

Segundo Winkin, para Goffman a comunicação é baseada (fundamentada) pelo comportamento, que é sempre regido (governado, orientado, etc.) por um conjunto de códigos e regras. Toda interação ocorre a partir de um conjunto de regras. Scheflen fala em "programa de uma interação", Hall fala em "cadeias de ação", Watzlawick em "cálculo da comunicação interpessoal" (Winkin, 1998:104).

 

JUVENTUDE, FICAR, NARCISISMO

Em observações anteriores no chat da Conex foi verificado que o público que o acessa, em sua maioria, é formado por jovens entre 16 e 26 anos. Esse segmento é o que proporcionalmente mais "navega" na Internet. Entre os usuários desse chat há um comportamento muito comum: o namoro na sala de bate-papo. É uma conduta mais associada ao comportamento do "usuário eventual". Alguns usuários do chat o acessam com a intenção de estabelecer encontros amorosos. Por ser essencialmente um acontecimento de momento e não requerer uma conhecimento anterior, se assemelha ao conceito de "ficar" trabalhado por Patrice Schuch (Schuch, 1998), prática difundida na cultura brasileira contemporânea. Uma explanação prévia sobre o assunto contribuirá no entendimento de uma das condutas presente em uma comunidade virtual. Para Schuch:

"O ‘ficar’ tem a sua especificidade garantida pelo fato de que é um relacionamento que se dá num momento, no qual não existe necessariamente um conhecimento anterior do parceiro e que envolve beijos, abraços, carícias e/ou uma relação sexual." (Schuch, 1998:48-49)

Para a autora, o "ficar" está inserido no processo de modernização da família brasileira nos anos sessenta e setenta, onde há um enfraquecimento dos laços entre famílias e do universo social mais amplo, e concentrando na família os sentimentos de emoções e afetividades. Também se caracteriza pelo enfraquecimento da fronteira entre as relações homem/mulher e pais/filhos.

Outra característica do "ficar" é a coexistência de formas modernas (individualidade e autonomia) com arcaicas (machismo, existência do par-casal). No entanto, é uma característica particular às sociedades complexas. Também estão presentes as idéias de "liberdade" e "escolha" que permeiam o fenômeno do "ficar" entre os jovens. "Ficar é, segundo Schuch:

"...o ‘campo de possibilidades’ aberto para as escolhas dos próprios tipos de envolvimentos e dos parceiros, explicitando as características da heterogeneidade de experiências sociais, fragmentação de papéis, coexistência de visões de mundo concorrentes e autonomia de domínios da sociedade moderna contemporânea, em que a diversidade encontra-se articulada apenas no indivíduo." (Schuch, 1998:52)

O "ficar" está inserido em um contexto onde há transformações sociais geradas pela urbanização, complexificação das relações sociais e valorização do indivíduo. Sennet, segundo Schuch, diz que a cultura contemporânea é marcada pela ideologia do intimismo. Desde o século XIX, há um crescimento do florescimento da "dimensão íntima e reveladora dos vínculos e sentimentos humanos", enfatiza-se a "manifestação dos sentimentos" a "revelação da autenticidade" e do "privado em público", ocorre um "declínio do homem público" e uma confusão entre público e privado (Schuch, 1998:83). Ou seja, há uma emergência da personalidade individual frente ao declínio da esfera pública. Esse processo é visto concretamente no narcisismo, afastamento e isolamento do indivíduo moderno.

Para Sennet, segundo Schuch, "a cultura despojada na crença no público e governada pelo intimismo mobiliza o narcisismo em suas relações sociais" (Schuch, 1998:85). "O narcisismo é o princípio psíquico que governa a cultura contemporânea, como se a realidade pudesse ser compreendida mediante imagens do ‘eu’" (Schuch, 1998:85). Um dos resultados práticos é o distanciamento dos contatos interpessoais.

Para Lasch, segundo Schuch, o narcisismo também está estruturando o caráter da cultura contemporânea (Schuch, 1998:87). Algumas características do processo marcado pela valorização narcisística: valorização da independência pessoal, instabilidade e desapego emocional, descrédito das relações afetivas, instabilidade das relações interpessoais, perda da confiança no futuro (Schuch, 1998:87). O narcisismo também está inserido em um mundo de imagens oscilantes" que resulta numa difícil diferenciação entre realidade e fantasia (Schuch, 1998:88).

A cultura do narcisismo é caracterizada pela perda da individualidade dos sujeitos, eles não se auto-afirmam. Sobrevivem em uma apatia seletiva, caracterizada pelo descompromisso emocional, renúncia do passado e futuro e propósito de viver "um dia após o outro" (Schuch, 1998:89).

Patrice Schuch conclui em seu estudo que o "ficar" ocorre em um contexto social caracterizado pela "maleabilidade e fluidez das relações sociais" (Schuch, 1998:239).

A PESQUISA NA REDE

Foram realizadas entrevistas individuais virtuais com informantes-chave da rede social que está sendo estudada. Ela é a formada por indivíduos que vêm utilizando o chat há meses e na maioria das vezes no turno da noite. Todos os membros da rede costumam se comunicar com os demais, no entanto em maior intensidade com alguns ao invés de outros. O objetivo dessa coleta de dados foi obter um conjunto maior de informações, captadas a partir das experiências dos informantes.

O "núcleo" da rede é formado por JEANE, Tifany, Sr.Destino, Blandícia, Caue, Barbie!!!, Alexia, batman, Tchê!!, Jeb e JonnhyBravo. Considero núcleo por ser o grupo de usuários que se comunica mais intensamente e regularmente. Na "periferia" da rede estão localizados: a) os usuários que acessam em menor intensidade e regularidade o chat, mas que são reconhecidos como pertencentes da "turma" pelos do núcleo; b) os usuários que acessam em menor intensidade e regularidade o chat, mas que não são reconhecidos como pertencentes da "turma" pelos do núcleo e os usuários de outras redes que utilizam o chat.

Neste capítulo são apresentadas as entrevistas feitas com JEANE, Tifany e Sr.Destino. A seleção por esses três informantes foi feita porque a inserção de cada um na rede se deu em momentos distintos. Tifany é considerada uma das pessoas "fundadoras" da "turma". JEANE conheceu Tifany no chat em um momento em que a "turma" já estava estabelecida e começou a fazer parte da rede. Sr.Destino conheceu no chat JEANE a princípio. Da mesma forma que ela foi "apresentada" ao restante da turma por Tifany, fez com Sr.Destino. Cronologicamente essa rede existe em torno de três anos. O ingresso de JEANE foi em torno de um ano após a "fundação" e o de Sr.Destino o mesmo tempo após o ingresso de JEANE.

A seguir são apresentadas as principais considerações feitas a partir da entrevista com os informantes JEANE, Tifany e Sr.Destino. O texto com aspas se refere aos comentários e idéias da própria informante. Fragmentos da entrevista foram reproduzidos em fonte courier new e têm o objetivo de enriquecer a compreensão da análise.

ENTREVISTA COM "JEANE"

JEANE utiliza regularmente o chat da Conex desde julho de 1999. Ela tem 43 anos e é separada do marido. Começou a freqüentar o chat por certa "curiosidade". Havia adquirido um computador na mesma época.

Ela encara sua relação com as pessoas do chat com sendo muito emotiva. Principalmente com "seus amigos". Para ela, são emoções que estão presentes tanto no ambiente do chat, como na vida real. A afetividade das relações são explicadas por ela como resultantes da "carência afetiva" de quem freqüenta o chat. O que explicaria o seu caso e o das demais pessoas, segundo a opinião da própria informante:

JEANE eu penso que as pessoas estão carentes .. e solitárias.. e quando tem afinidades e se identificam com os amigos virtuais... demonstram o que sentem ...

A Internet é percebida por ela como sendo um "canal" entre o virtual e o real. É vista como sendo uma "via", com as características de ser "larga e insegura". A insegurança é uma característica percebida ao mesmo tempo que a "incerteza", o "perigo", a "agonia".

JEANE comentou que estava conversando com uma pessoa mas que pouco sabia sobre ele e se sentia desconfiada. Faltava para ela elementos concretos:

JEANE estamos conversando há um mês.. mas não tenho certeza que é que diz que é .. porque não tenho nada concreto... se me entendes... fone end ..nunca a vi

A informante tem um relacionamento com as pessoas na Internet que se caracteriza por ter muitos elementos concretos. Os elementos reivindicados por ela com relação a essa pessoa nova existem com relação aos amigos antigos. Ela conhece pessoalmente seus amigos virtuais, tem seus telefones e sabe onde alguns residem.

Esses elementos parecem ser definitivos para a segurança da informante. Na medida em que eles não estão presentes, o relacionamento com alguma pessoa no chat gera desconfiança. Em um momento da entrevista JEANE manifestou que não iria mais freqüentar o chat. Estava revoltada, se sentindo mal, enganada. Ela valoriza muito a sinceridade no relacionamento via computador.

Aliada a essa percepção negativa de insegurança e desconfiança a informante manifestou "fascinação" pelo poder que a Internet tem de aproximar as pessoas. Para ela a Internet é o "meio" que aproxima as pessoas. O "fim" é o relacionamento "real", off-line, com a presença física. Aliada à característica de fascinação está a de "curiosidade". Na opinião de JEANE a curiosidade faz com que se converse com uma pessoa desconhecida no chat.

Outro elemento presente na conversa no chat é a "busca de afinidades". É o que determinaria a continuidade da relação/conversa, ou o seu imediato término. Neste ponto também foi manifestada pela informante a capacidade que há no ambiente de chat de "liberdade de escolha" da pessoa com quem se inicia uma relação/conversa. Ou mesmo liberdade de encerrar a comunicação/conversa, o que JEANE não teria coragem de fazer no mundo off-line.

O que atrai JEANE para uma conversa? A grande maioria das conversas observadas que iniciam no chat têm como princípio a busca das informações de idade, lugar onde mora e ocupação (ex.: "...qual tua idade?", "...de onde tc?", "...o que faz da vida?"). No entender de JEANE, são "perguntas primárias". Ela repudia esse tipo de

início de conversa. Se interessa pela sinceridade, conversa interessante, "energia positiva". Para ela seria "algo de bom", algo indicado pela sua "intuição".

JEANE ah.. tá ... bem ... os amigos que eu escolhi eu adoro.. hi hi hi mas em geral quando a gente entra no chat e tá cheio de nicks diferentes.. eu fico intrigada... curiosa.... não gosto de fazer estas perguntas primárias.. pra começar... se a pessoa me passa uma energia positiva .. dou corda no papo.... às vezes me fazem companhia à noite.... às vezes dou muita risada..... e quando alguém me aborrece .. descarto logo...hi hi hi coisa que não tenho muita coragem de fazer ao vivo e a cores...

Na maioria das vezes ela costuma conversar novamente com as pessoas que conhece no chat. O contrário é raro. JEANE vê como positiva essa retomada da conversa em um momento futuro. Pelo seu comentário anterior, de que a Internet seria "o canal para o real", essa conversa futura ocupa lugar natural no seu processo ideal de relacionamento, que teria a Internet como "meio" e o real como "fim" ("passam do virtual para o real", "nada substitui a presença das pessoas").

A experiência de JEANE no chat significou para ela a sensação de pertencimento a uma coletividade. É lembrado saudosamente como marcando uma passagem importante na vida dela. Quando começou a conhecer seus amigos do chat sentiu-se formando "parte de uma turma, como no tempo da escola".

JEANE começou a freqüentar o chat em um momento de sua vida em que se sentia solitária e depressiva. A "turma" a que ela se refere já existia. Começou conversando com um homem fora da turma, mas acabou conversando com duas mulheres de dentro da turma que o conheciam. A partir daí conheceu outras pessoas.

Esse grupo de pessoas tinha o costume de realizar encontros coletivos mensais entre os freqüentadores do chat. Em conversas com os usuários fiquei informado que essa prática é comum a outras turmas. Em outros chats também existe esse costume entre os usuários.

Uma consideração importante deve ser feita. Os encontros a que JEANE se refere e os quais ela começou a freqüentar reunia, em maior proporção, usuários do chat do período da noite. Essa distinção é feita pelos próprios indivíduos usuários do Chat Conex, que se dividem em "os da noite", e "os do dia". Os usuários "do dia", segundo informações recolhidas no chat, também costumam realizar encontros coletivos.

O conhecimento off-line das pessoas com quem conversava no chat significou para JEANE uma melhora qualitativa no seu relacionamento com a turma do chat. Conheceu melhor as pessoas as quais conversava via computador e pode selecionar as quais tinha maiores afinidades e identificação.

O chat deixou a vida de JEANE mais "interessante e animada". Trouxe novos amigos. Fez passar a depressão. Fez sentir-se mais valorizada e mostrou a ela seu espírito de liderança entre a turma. Trouxe o amor e, em seguida, a desilusão com esse mesmo amor:

JEANE eram todos ....sabem... eles acharam que foi legal.....me sentiram mais alegres... e depois comecei a me interessar por um cara.... eu estava com o coração fechado....até então... bah parece um confessionário..... hi hi hi tô me estendendo muito nas respostas?

JONATAS o tamanho das respostas está bom... o cara era do chat?

JEANE ok.. entendi.. hi hi hi ... era do chat..... fiquei tc com ele .... pouco tempo... nos falavamos por fone ou por e-mail.. era meu vizinho de rua... mas levei muito tempo para me animar a conhecê-lo.... me envolvi.. e qdo resolvi conhecê-lo... ele me disse que tinha conhecido uma guria e tinha se apaixonado... eu broxei.... foi dureza.... mas como eu gostava e gosto muito dele .. acabamos ficando amigos....

JEANE acha que a Internet é apenas um "meio" que possibilita encontros no mundo off-line. Ela compara a Internet ao telefone e o computador a outro equipamento eletrônico qualquer, como o celular, micro ondas, máquina de lavar, geladeira, que já fazem parte da sua vida. Ficar presa ao computador, para ela, é igual a ficar presa a esses equipamentos do cotidiano. Ela critica o usuário que se prende apenas ao computador para estabelecer novas relações sociais, valorizando a experiência off-line para a concretização de uma interação face-a-face.

Ela admite que começou a freqüentar o chat com o interesse de "conhecer pessoas". Achava difícil se interessar amorosamente por uma pessoa. Depois de sua experiência viu que seria possível acontecer isso, conhecer alguém que a "interessasse mais". Atualmente, ela percebe que todos no chat procuram "alguém" (um relacionamento amoroso). Mesmo os casados procuram "alguém" mais interessante do que já têm.

A experiência de JEANE mostra alguns aspectos que motivam o início do relacionamento via computador. No caso dessa informante estiveram presentes as idéias de carência, solidão e depressão como motivadoras. Aliado a esses sentimentos está o tipo de comunicação via computador com suas principais facilidades: garantia do anonimato, contato simultâneo com diversas pessoas e comodidade em estabelecer esse contato. O resultado é a união dos dois colocando a solidão, depressão e carência como problema e o computador, Internet e chat como solução.

ENTREVISTA COM "TIFANY"

Tifany é estudante e tem 26 anos. É uma das pessoas "fundadoras" dos "encontros da conex". Dos "fundadores", que foram 9, ainda participam da rede ela e Blandícia. Aliás, foram as duas mulheres que apresentaram JEANE ao rapaz o qual esta se refere, e de certa forma, a introduziram na "turma".

Tifany comentou que entrou pela primeira vez no chat por curiosidade, "isso já faz três anos". Ela e Tom organizaram o primeiro encontro da turma, o qual teve a participação de 9 pessoas. Vale lembrar que o maior que teve, segundo a informante, foi o de dezembro de 1999. Ela conta que naquela época eram outras pessoas diferentes que formavam a "turma".

Ela conhecia pessoalmente Rafael. Com o encontro da turma ela soube que Tom estudava na mesma escola que ela. Exceto esses casos, ninguém mais se conhecia pessoalmente até esse evento. Tifany comentou que não tem dificuldade alguma em fazer novas amizades, nem no modo on-line, nem no off-line. No entanto, considera que no chat, no modo on-line, há facilidade. A facilidade a que ela se refere baseia-se no princípio do anonimato:

Tifany acho que é mais fácil pela net..pois as pessoas falam mais de si....pois não estão aparecendo....achoi que aqui falam mais coisas

JONATAS mas olha só........a gente também pode conhecer pessoas em uma parada de ônibus por exemplo......não precisa ser na net né?

Tifany claro que pode...mas acho que aqui é mais facil...as pessoas ficam mais abertas...pelo simples fato de não precisar se mostrar...ninguem sabe quem é quem

Ela acha que as pessoas, de modo geral, acessam a Internet por se sentirem sozinhas, ou para "azueirar" (se divertir) ou a trabalho. Embora ela dizer que entrou pela primeira vez por mera "curiosidade", e que não tem dificuldades de se relacionar no mundo off-line, admite que se sente só. Acessa a Internet por se sentir sozinha:

Tifany vou te dizer que as vezes me sinto sozinha e a proimeira cpoisa que faço é ligar o micro

Tifany explica que no início "entrava" pouco, mas que com o passar do tempo começou a ficar mais tempo e "entrar mais no chat". Em um momento da observação no chat Sr.Destino comentou que Tifany era conhecida como sendo a "Garota 24h". Ele explicou que toda vez que entrava no chat, lá estava Tifany. O aumento de horas de acesso à Internet de Tifany sugere que houve um estreitamento das relações na rede social a que ela participava, o que é comprovado por ela própria quando manifesta que conquistou muitos amigos com os quais se comunica bastante.

Tanto envolvimento na Internet motivou um relacionamento amoroso. Ela conheceu seu namorado pela Internet. Com exceção a ele, ainda teve a experiência de "ficar" com outro rapaz. Da mesma forma que JEANE, acredita que muitas pessoas que acessam a Internet estão atrás de relacionamentos amorosos. Ela mesma se coloca nesse segmento quando comenta:

Tifany tudo pode acontecer né....vai que minha alma gemea tá na net...risos

No entanto ela percebe a existência dessas formas de relacionamento e como sendo superficiais e inconstantes:

Tifany eu noto que as pessoas estão perdidas.....querem um relacionamento e ao mesmo tempo não querem se prender..ainda mais os homens...tem muita mulher dando sopa....aí eles querem apenas curtir

Tifany foi uma das pessoas "fundadoras" da turma que existe hoje no Chat Conex. Atualmente ela não tem acessado muito o Chat. No entanto, continua estabelecendo os laços na rede formada no chat. O motivo de seu afastamento está nela achar que o ambiente ficou "ruim", que muitas das pessoas que acessam agora costumam "avacalhar". No seu caso, o ICQ substitui o chat. A vantagem está nele apresentar um avanço tecnológico que possibilita um envolvimento mais aproximado, como explica a informante:

JONATAS mas o chat não é mais aberto????

Tifany é...e o problemA É ESSE......eu prefiro coisas mais fechadas...onde se conhece melhor as pessoas....o ICQ é mais pessoal.....não tem avacalhaçõ....não cai toda hora....raramente tem que responder de onde tc...como eu sou..pois as pessoas me conhecem

Mesmo estando diante de um sistema de comunicação que possibilita um grau total de anonimato e impessoalismo, Tifany busca o contrário e reivindica esse problema presente no Chat.

Tanto no chat da Conex (em outros chats também foi constatado) como no ICQ, a preocupação básica para o início da comunicação são a "idade" e o "lugar onde se está". Tifany explicou como faz para conhecer pessoas no ICQ. Usando uma ferramenta de busca do programa ela procura pessoas (que estão conectadas no momento) a partir da idade e lugar que ela deseja. Em seguida ela manda uma mensagem, da mesma forma como faz no chat. Uma vantagem diferencial do ICQ é ele possibilitar a "apresentação" da pessoa em uma página de "detalhes". São informações do tipo idade, cidade, trabalho, hobby, etc.

Além da idade e do lugar, o sexo da pessoa é uma variável importante. Ela argumenta que se procurasse mulheres elas achariam que ela era "machorra". O depoimento de Tifany sugere que as redes que se formam no ICQ têm o envolvimento amoroso em forma latente. Para ela mesma há essa possibilidade.

Ela conheceu pessoalmente alguns homens que havia se comunicado no ICQ. O contato pessoal está também presente na rede que se forma na Internet. Tifany comenta que alguns homens já querem conhecer pessoalmente logo, mas para ela há a necessidade de um espaço de tempo até o conhecimento pessoal. Seria o tempo necessário para se "conhecer melhor", via computador. Sobre esse momento de aproximação física ela explica:

Tifany tb pode......mas eu me previno..só conheço pessoas em lugares publicos.....e só se me interessa muito...risos

 

Tifany eu tenho vários amigos...eu não vou com o intuito de ficar...e sim de conhecer....até pq posso não gostar....deixo bem claro que somos amigos

A presença do relacionamento amoroso em forma latente não é exclusivo da rede formada por Tifany no ICQ. No primeiro encontro da turma já estava presente a idéia do envolvimento amoroso. Ela explica que ele sempre esteve presente no chat e que ganhou mais importância nos encontros da turma. De forma menos clara, mais sutil, passou a ser mais "escancarado", explícito:

JONATAS quando começaram os encontros, tu acha que tinha muita ''caçação''?

Tifany olha tinha ..mas era mais sutil.....

JONATAS mas dentro do chat ou fora do chat?

Tifany olha dentro do chat..sempre houve ... agoras fora tá mais escancarado agora

JONATAS mais como??

Tifany nos ultimos que teve né...

Tifany ainda é "da turma", mesmo optando por se comunicar mais pelo ICQ do que pelo chat. Ela se comunica com seus amigos "da antiga" do chat pelo ICQ, mas está envolvida em novas redes sociais originadas no ambiente do próprio ICQ. O fato dela ter essa opção não a afastou da rede formada no chat. Mudou apenas a maneira de formar novos laços de amizade. Isso indica que ela utiliza a comunicação via Internet como ferramenta para conhecer novas pessoas, estabelecer novos laços de amizade e possibilitar envolvimentos amorosos. A rede de amigos não existe "no chat", ou "na Internet", ela existe fora desses meios e sua manutenção não depende deles, visto que Tifany ainda se comunica e se encontra com os antigos amigos, ou via Internet (Chat Conex ou ICQ), ou pessoalmente, ou por telefone mesmo.

ENTREVISTA COM "SR.DESTINO"

Sr.Destino tem 24 anos e mora em Porto Alegre. Começou a freqüentar o Chat Conex no final do ano de 1999, em meados do mês de agosto. O primeiro encontro da turma o qual participou foi o de dezembro do mesmo ano.

Ele diz que acessou o chat pela primeira vez por "curiosidade". Sr.Destino mora em Porto Alegre faz um ano e meio. Quando começou a freqüentar o chat fazia apenas seis mêses que morava nesta cidade. Antes morava em Rio Grande e veio a trabalho. Conhece alguns poucos amigos dessa cidade que moram atualmente também em Porto Alegre, mas nada comparado ao número de amigos que fez quando começou a freqüentar o chat.

Sobre sua primeira participação com a "turma" em seu primeiro encontro ele comenta:

Sr.Destino Achei legal, mas a gente tem sempre que aprendere a separar o joio do trigo

Ele está se referindo às pessoas que iam aos encontros com a intenção mas explícita de estabelecer envolvimentos amorosos. No caso ele cita dois exemplos:

Sr.Destino mas voltando a vaca fria, ´pessoas como o Mi, a gigi e etc

Mi foi também citado por JEANE e por Tifany. Ele assume diante da rede o mal exemplo como membro. As duas informantes se referiram a ele como sendo "tarado". Sr.Destino explica que ele ia aos encontros com a inteção explícita de "ficar com alguém".

Sobre o impacto que foi a sua entrada na turma do chat, Sr.Destino comenta:

Sr.Destino algumas mudançãs, tipos novos amigos, tb tem o impacto sde conhecer gente que pareciam só nomes

Sobre as pessoas que acessam o chat de uma maneira geral, ele acha que o fazem por se sentirem só e por experimentarem no chat um situação que vence a inibição:

Sr.Destino Tb, preencher uma solidão que sentem em certashoras, como a madrugada

Sr.Destino sincerza\mente, acho que acessam para tentar ser lá o que não são na vida real, tipo, desinibidas, e etc

 

Sr.Destino O fato é que muita gente procura o chat como escape para os problemas sentimentais

A avaliação que Sr.Destino faz dos usuários de uma maneira geral possivelmente está relacionada à sua própria experiência pessoal. Visto que antes de começar a acessar o chat ele encontrava-se em uma situação com fracos (ou inexistentes) laços de amizades em seu novo local de moradia, situação gerada pelo afastamento de sua cidade, onde estava inserido em uma rede social mais densa.

Atualmente ele diz acessar menos o chat. Assim como Tifany, ele utiliza mais o ICQ, no entanto não como ferramenta para conhecer pessoas, como ela faz. Ele utiliza mais para manter a comunicação com seus amigos formados no chat. Argumenta que é levado pela tecnologia que o programa ICQ oferece. Sr.Destino explica que acessa menos o chat atualmente porque cansou do sistema de aproximação comum no chat:

Sr.Destino Não, não tenho saco para ver aquelas perguntinhas

mais

 

Atualmente ele cultiva os laços estabelecidos há cerca de um ano. Costuma se encontrar com seus amigos do chat, mas não em "eventos" como eram os "encontros da turma", e sim em situações mais próximas do cotidiano. Por exemplo, JEANE mora próximo a sua casa e freqüentemente o visita.

Sobre o fato de conhecer as pessoas fora da Internet, Sr.Destino dá sua opinião:

JONATAS tu acha que o pessoal que entra no chat tá interessado em conhecer as pessoas pessoalmente?

Sr.Destino No fundo no fundo, quando conhecem alguém legal,podem até negar, mas é isso que querem

Assim como para JEANE e Tifany, mais uma vez a idéia do chat como meio para conhecer pessoas está presente. Da mesma forma que está presente o relacionamento amoroso. O Sr.Destino conheceu sua namorada através do chat. Ele explica que a conheceu sob a forma que conhece pessoalmente qualquer pessoa, ou seja, com a intenção da "amizade". No entanto, admite que por serem de sexos opostos a situação foi "um pouco diferente":

Sr.Destino Não, não foi diferente de outros casos, a gente começou sem intenção nenhuma,, e se encontrou pelça priomeriavez na boa, como amigos(émas ´u sabe que sempre qaundo um homem encontra uma mulher a outra cabeça é que pensa)

O início do uso do chat por Sr.Destino está associado à sua condição de vida off-line. A "curiosidade" a que ele e os demais informantes se referem sugere ser um sentimento resultante de uma condição de vida caracterizada pela carência, solidão e fraco pertencimento à uma rede social no mundo off-line. A sua penetração na rede que já estava formada no chat foi facilitada pela "desinibição" que a comunicação via computador propicia. Sua permanência na rede também deve ser relativizada a partir de sua condição de vida off-line.

A rede que no início estava presente apenas no modo on-line, passou a ocupar sua vida no mundo off-line. No momento em que se envolveu amorosamente, seu "entusiasmo" no chat diminuiu. Essas "transformações" sugerem ser a explicação ao fato dele acessar menos o chat atualmente (que é o local em potencial para se conhecer novas pessoas e estabelecer novos laços de amizade) para se dedicar à comunicação com seus "amigos antigos" por ICQ, ou por telefone ou por visitas pessoais. Ou seja, no momento em que ele se inseriu em uma rede social e desenvolveu um relacionamento amoroso, elementos que faltavam anteriormente em sua vida, houve uma estagnação na sua atividade no chat (de conhecer novas pessoas) que é explicada como tendo se tornado enfadonha.

 

PRÁTICA DA REDE NO CHAT

Neste capítulo serão apresentados os principais dados coletados a partir do modo de interação virtual no chat. O foco da rede social formada no chat. A maneira como ela se articula, questões pertinentes, enfim, o "dia-a-dia" do chat. Os dados foram obtidos na interação pesquisador-usuários (do núcleo e da periferia da rede) e entre usuário-usuário (usuário do núcleo da rede com outro do núcleo, ou entre núcleo-periferia, ou entre perifeira-periferia).

A primeira sensação que se tem ao acessar o Chat Conex é uma certa alienação. Diante dos olhos se tem um conjunto de texto amorfo se formando a todo segundo. Texto que é formado por um conjunto de mensagens: de "fulano para sicrano", de "sicrano para beltrano", de "beltrano para fulano", etc. Na medida em que o tempo vai passando, e se acompanhando a dinâmica do chat, o texto vai tomando forma. Os fulanos, sicranos e beltranos vão podendo ser nomeados, bem como suas conversas, acompanhadas. Gradativamente vai sendo possível observar a rede de relações que se desenvolve no chat, bem como os vários nódulos que se desenvolvem a todo o instante.

Os assuntos e conversas são desenvolvidos ora em pequenos grupos, ora por quase totalidade dos usuários conectados ao chat naquele instante. Os temas podem surgir a qualquer instante. Não seguem uma regularidade, mas se caracterizam pela futilidade.

*MULHER* fala-com @g@uch@: Miga o Teddy comeu chiclets, pode??
@g@uch@ fala-com *MULHER*: Vou matar esse cachorro, juro !!!

É comum haver na comunicação no chat comentários sobre o ambiente onde se está acessando. Como os membros da rede se conhecem pessoalmente e até costumam visitarem uns aos outros, a comunicação parece fluir muito naturalmente. *MULHER*, @g@uch@ e O-PESTINHA encontram-se diariamente no chat. Costumam desenvolver conversas que se caracterizam pela superficilidade e despretensão. Elas representam a forma pura do "bate-papo". A seguir são apresentados algum fragmentos de suas conversas:

*MULHER* fala-com @g@uch@: miga o Peste me contou que toda vez que tem que bater o ponto, ele desce correndo as escadas e o guarda fica olhando meio espantado, pensando será que esse aí tá louco!!!!!
O-PESTINHA2 fala-com *MULHER*: ele acha que sou atleta..ahahahahahah
@g@uch@ fala-com O-PESTINHA2: Mas o guarda está acordado??? *GGGGGGGGG

O-PESTINHA2 fala-com @g@uch@: o da guarita não...é o do corredor
*MULHER* fala-com @g@uch@: tudo isso pra voltar ao micro....rs
O-PESTINHA2 fala-com *MULHER*: não é bem assim..tudo isso para ver vc de novo...eheheheh

*MULHER* fala-com O-PESTINHA2: ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh que amorrrrrrrrrrrrrrrr
*MULHER* fala-com @g@uch@: imagine a cena amiga, ele que nem louco pelos corredores!!!

O-PESTINHA2 fala-com @g@uch@: ahahah passo cada uma por causa de vcs...

(...)

@g@uch@ fala-com *MULHER*: quer miojo?????? *risos
O-PESTINHA2 fala-com @g@uch@: que nojo/???/

@g@uch@ fala-com O-PESTINHA2: não falei contigo hehehe

O-PESTINHA2 fala-com @g@uch@: grossa!!!
*MULHER* fala-com @g@uch@: Quero, comi uma simples torradinha....rs
@g@uch@ fala-com *MULHER*: torrada, mas torrou pq vc quiz ou não ????? *risos

(...)

O-PESTINHA2 fala-com *MULHER*: kd vc????
*MULHER* fala-com O-PESTINHA2: vorteiiii
*MULHER* fala-com O-PESTINHA2: fui atender a ju no banho...
*MULHER* fala-com O-PESTINHA2: arre!!! a Ju est no banho, queria roupas...
*MULHER* fala-com novata: miga, quando vc vai me ligar??

O CHAT COMO PONTO DE ENCONTRO

A "turma" transforma o chat em um ponto de encontro. O elemento que define o ponto de encontro é o horário. Dessa forma, o usuário sabe em que momento encontrar seus amigos. Tanto o que acessa diariamente, como aquele usuário que ficou algum tempo sem acessar por algum motivo qualquer, mas que está retornando ao convívio na rede:

Heros fala-com *MULHER*: linda, eu sumirei do chat ou entrarei bem pouquinho, de vez em quando dou um enrtradinha para falar com os amigos, se por acaso alguém perguntar, por favor diga-os o que te disse agora ok?

(...)

kaka fala-com Jo: que falta me fez este mês......mas agora volto a ativa....

(...)

Caue fala-com Blandícia/42/: Grande Presença.......óia eu aqui novamente...hehehe
Caue fala-com Blandícia/42/: ninguém me procurou anquanto estive fora?

(...)

Moreno-Ch abraça Barbie!!!!!!!!: Hoje é o dia do retorno dos Veteranos !!! *r*
kaka fala-com Todos em pvt: nem sentiram minha flata....
Killer fala-com DR-LOVE: NADA KRA SÓ TO DANDO UM ALÔ PRA GALERA!!

 

SINCERIDADE NO CHAT

Uma das características apontadas pelos usuários do chat com relação aos laços de amizade formados on-line foi a "sinceridade" na conversa. Em relação a esse aspecto, kaka comenta:

kaka fala-com Jo: pra min, os virtuais são mais sinceros q os reais, ....aqui contamos coisas de nossa vida q talves não contasemos pessoalmente, oa amigos são mais verdadeiros...

Esse aspecto também é referido por JEANE e Tifany. Mesmo assim a falta com a verdade é uma possibilidade sempre presente. Foi observado que o chat também é associado à prática da mentira. Sr.Destino satiriza que ali é o lugar onde "todos têm um metro e oitenta, são loiros e de olhos azuis ou verdes". A dualidade do chat sugere que existam momentos distintos da ocorrência da "mentira" e da "verdade". O momento da mentira ocorreria onde não há ainda o estabelecimento de algum tipo de laço de amizade. A partir do momento em que é estabelecido o laço, concretizada a amizade, abre-se espaço para a sinceridade/verdade:

lucinha fala-com casado-poa: será que voce não esta mentindo, pode-se enventar´,pessoas sinceras são dificeis de encontrar....

(...)


lucinha fala-com casado-poa: adorei a tua honestidade, sempre seja assim, que tu consiguiras o que pretende....
lucinha fala-com casado-poa: sou cinsera em tudo que faço, mesmo sendo no schat....

HISTÓRIA / MEMÓRIA DA TURMA

A rede social estabelecida no chat utiliza como parâmetros para sua memória antigos usuários e fatos ocorridos no ambiente de chat no passado. Em momentos da observação houve manifestações neste sentido. Alguns exemplos são apresentados abaixo:

Caue fala-com Blandícia..42: o galera boa......era uma parada o pessoal.eu tenho falado com alguns apenas no ICQ...como o Jonnhy Bravo.o Sr. Destino.o Batmam......a galera anda sumida mesmo......

(...)

Caue fala-com Blandícia..42: tava mesmo....bhá.......lembra quando o Batmam tinha um Bar aqui no chat?
Caue fala-com Blandícia..42: a entrada do cara que era triunfante......*r*.....TANANANANA....
Caue fala-com Blandícia..42: ôôô teve uma vez que eu fui eleito o Presidente pelo PI Partido dos Internautas.....fiz cada promessa inesquecível.....hehehhe

(...)

Caue fala-com Jo: bhá cara sem condições de falar.tu tinha que ter vivido as boas épocas desse chat aqui......muito show mesmo......

(...)

Caue fala-com Blandícia..42: vc lembra daquela vez que o cara entrou dizendo que o Batmam tinha morrido.?
Caue fala-com Blandícia..42: mas vc ficou sabendo da história?.a galera tomou o maior susto.....tinha gente que chorava..*r* inda bem que não passou de uma brincadeira dele...
Caue fala-com batman: Grande Presença !!!!!! beleza véio.nos estava agora lembrando da época que vc tinha o Bar da Conex.lembra?

 

 

 

RECRIAÇÃO DIÁRIA DO CHAT

Todo dia o ambiente de chat é recriado. Seu "clima" dependerá dos membros que estarão presentes, o que demonstra o caráter efêmero do Chat Conex. A recriação diária do chat não é somente percebida pelo pesquisador, mas também pelos próprios usuários regulares. O ambiente de chat pode variar de "legal" à "chato" e de "movimentado" à "parado":

Caue fala-com Blandícia.42: que tal o nosso chat hoje.....muito legal né?

Caue fala-com Alexia: Grande Presença......o pessoal da antiga reaparecendo......*r*.como vai amiga?

(...)

Beavis fala-com Todos em pvt: A gente vê q isso tá movimentado hoje
Barbie!!! fala-com Rosa: os convidados taum chegando...espere um pouco
Barbie!!! fala-com incognito: aé... puxa.... aki tá bom por enquanto....mas amanha já muda td!
Barbie!!! fala-com incognito: onteum eu estava cansada..... naum quis entrar
Barbie!!! fala-com Todos: tchau galera!!! boa 6a. a todos!

(...)

KAKA fala-com PAPAI-NOEL-DEST: entro aqui todos os dias, quase todos me conhecem.....sou bastante popular.....
Rosa fala-com Barbie!!!: beijinhos....té outra hora....

O encontro da turma no chat recebe traços de evento, de acontecimento. Na maioria das vezes a reunião ocorre naturalmente. No entanto, Sr.Destino me explicou que às vezes os encontros são combinados off-line, neste caso, através de contatos telefônicos ou pessoais. Em outras vezes o ICQ serve como meio de "chamar" um membro. É comum o usuário ficar conectado ao chat e ao ICQ concomitantemente. Neste caso, comunicando-se com a turma no chat e com algum membro da turma que não esteja conectado ao chat no momento pelo ICQ. Ou ainda, com a turma no chat e com algum amigo não inserido na rede, em particular, no ICQ.

Os momentos em que há a participação de quase totalidade dos membros no chat são tratados com saudosismo. Esses encontros no chat são remetidos simbolicamente aos encontros realizados off-line. Há situações em que chegam a emocionar!

Caue fala-com Blandícia..42: ae Blandi.estou falando com a Tifany no ICQ.ela ta te mandando um beijão.....
Blandícia..42 fala-com Caue: outro prá ela.....e diz prá ela que não esqueci do niver dela

Barbie!!!!!!!! fala-com Caue: manda um beijo p/ tifani
Caue fala-com Blandícia.42: convidei a Tifany tb.ela já vem vindo.....
Caue fala-com Alexia: claro que sim.....beleza encontrar a velha e boa turma junta novamente....
batman fala-com Blandícia.42: e aí , tudo bem, tá chorando de emoção?
Blandícia.42 fala-com batman: tô quase.....
Caue fala-com batman: tem falado com o Destino e com o Tche?
batman fala-com Todos: TÁ LEGAL, MOMENTO NOSTALGIA AGORA
Blandícia.42 fala-com batman: assim eu vou chorar
Alexia fala-com batman: risos.... só falta chorar!!!
Blandícia.42 fala-com Todos: MEUS QUERIDOS....ESTOU AKI...COM OS OLHOS CHEIOS DE LÁGRIMAS....PARECE QUE ESTOU VENDO VCS AKI NA MINHA FRENTE TODOS RINDOOOOOO DE MIM

(...)

Caue fala-com batman: o cara eu me arrependo mil vezes de não ter ido a nenhum dos encontros
Blandícia.42 fala-com Caue: TU IRIAS ADORAR
Caue fala-com batman: até uns dias atras eu tinha todosos mail informativos de todos os encontros.......acabaram perdidod.....um tal de Virus Hapy passou por aqui........

(...)

Sr.Destino fala-com batman: A espelunca ate que ta cheia hoji
batman fala-com Sr.Destino: é que não tem nada de bom na televisão

CONFLITOS NO CHAT

Os momentos de harmonia no chat são contrastados pelos eventuais conflitos. O motivo que gera um conflito generalizado no chat é a "clonagem" feita por hackers. Consiste em enviar uma mensagem no nome de outro usuário. Gera frustração tanto de quem é "clonado", quanto de quem está no chat, provavelmente por significar uma ameaça constante. De repente, pode começar a aparecer mensagens na tela que não foram enviadas pelo remetente que está sendo indicado, alterando-se a comunicação entre os usuários. Outro motivo de conflito são as manifestações individuais "maliciosas" de alguns usuários eventuais: a "baixaria". Mas exceto a clonagem, não foi percebido outro motivo generalizado de conflito. Ele pode surgir a qualquer momento e ser desenvolvido a partir de qualquer incompatibiidade entre usuários.

Carente fala-com Todos em pvt: Olha aqui seu filho da p... Continue com os clones e vc vai se ferrar. Estou no seu pé todo o tempo. Vc nem imagina o q vai te acontecer. Se mete comigo para ver....

(...)

marcos(RJ) fala-com Todos: QUE BAIXARIA.....

(...)

O-PESTINHA2 fala-com Todos em pvt: SUJOU PESSOAL..COMPORTEM-SE

REGIONALISMO

Está presente no chat um certo "regionalismo" que vai de encontro à idéia da "transnação" e o "fim das fronteiras". Embora existir a idéia de que a Internet rompe fronteiras, os usuários se identificam muito pela localidade onde residem. Foram verificados vários casos onde o usuário entrou na sala e foi logo perguntando se havia alguém de determinada cidade interessado em conversar. É uma conduta mais freqüente entre os usuários eventuais. Essa prática mostra que os usuários procuram estabelecer laços com outros usuários de sua localidade indicando uma tentativa deliberada de estabelecer laços on-line para em seguida transformá-los no modo off-line.

marcos(RJ) fala-com Todos: ALGUMA GATA DO RIO PRA TC COMIGO?

HEHEHE fala-com Todos: ALGUEM DE CAÇAPAVA ???????
*Min@* fala-com Todos: oi alguem d caçapava?
Perverso fala-com Todos: Alguem de Curitiba?
Amigo fala-com @nn@-juli@: vc é de onde ???
Formiga fala-com Todos: Tem alguém de Pelotas aí?
moni fala-com Todos: alguem tc de SM?

EXISTÊNCIA DE OUTRAS TURMAS, TRÂNSITO ENTRE ELAS

A existência de "outras turmas" é reconhecida pela rede estabelecida no Chat Conex. Tanto no próprio Chat Conex como em outros chats. Em um certo momento JEANE começou a estabelecer maior comunicação com *MULHER*. Sr.Destino comentou que JEANE estaria migrando para a "ganguezinha da SENSUAL". Expliquei a ele que não estava entendendo, já que não havia nenhuma SENSUAL no chat naquele momento. Ele me respondeu que SENSUAL e *MULHER* eram a mesma pessoa, mas que antes era conhecida pelo primeiro nick e que atualmente havia trocado.

Em alguns momentos da observação foram verificados comentários dos usuários sobre outros chats. Principalmente entre os usuários eventuais, há a prática de freqüentar vários chats. Transmitem a idéia de irem "de chat em chat" à procura de estabelecer uma comunicação e à procura de uma "turma divertida". Como ilustração cabe o diálogo entre Barbie!!!, que é conhecida no chat e está inserida na rede, e incognito, que assume a sua posição de desconhecido e lança a imagem de "estranho no meio":

Barbie!!! fala-com incognito: isto aki j prestou... por isto q me irrito as vezes!

incognito fala-com Barbie!!!: je que queres agitação passa no terra...............tenho uma turma muito legal la
Barbie!!! fala-com incognito: brigada pelo convite...mas j estou saindo... toda vez q venho aki...me estresso
incognito fala-com Barbie!!!: mas te garanto q la n vais te estressar.............te apresento p um pessoal q ‚ 10000000000000000
Barbie!!! fala-com incognito: posso dizer o mesmo entaum!!! hahahah
incognito fala-com Barbie!!!: tche agora vou p chat do terra.............smackkkkkkkkkkkkkk
Barbie!!! fala-com incognito: bye.... t outro dia!
incognito fala-com Barbie!!!: vou te esperar por la.............

A PROCURA POR RELACIONAMENTOS AMOROSOS

A procura no chat por um envolvimento amoroso é uma constante. Embora seja praticada principalmente por usuários eventuais, é uma conduta que também permeia o comportamento dos usuários regulares. A etapa das entrevistas mostrou mais claramente essa conduta entre usuários regulares, inseridos na rede. No momento cabe considerar o caso de usuários eventuais, que utilizam uma abordagem mais explícita e por vezes chegam a gerar conflitos.

jeb fala-com Barbie!!!: ‚ verdade. mas claro que posso encontrar minha cara metade na net, derrepente

(...)

RAINHA fala-com *Cris*: VC É DONA DELE, QUERIDINHA?
RAINHA fala-com gatopoa: VC PARECE QUE ESTA BEM QUITADO POR AQUI, A CRIS ESTA COM CIUMES
gatopoa fala-com RAINHA: claro eu sou o gatão dela porque ela é a unica poposuad por aqui,
megg canta-para Todos: Rainha e cris gatapoa é meu

(...)

SIDNEY-2000 fala-com zai: tchau babaca !!! vou procurar uma mulher.
LoboMau fala-com Rosa: é sem dúvida a Rosa mais linda do meu jardim....não me canso em te admirar, sinto o teu doce perfume e fico certo de que Deus existe, pois só ele poderia ter criado algo como você.
Pywa fala-com Todos: E aí? alguma gata livre?

(...)

alexandra fala-com MAICON: 16, como vc é?
alexandra fala-com MAICON: Sou morena, olhos castanho claro, 1,77 de altura

MAICON fala-com alexandra: de onde tc ?
alexandra fala-com MAICON: do rs, e vc, de onde tc?
MAICON fala-com alexandra: rs tbm, mas de que cidade ?

 

 

CONSIDERAÇÕES ANALÍTICAS

A investigação feita sobre a interação social da comunidade estabelecida no Chat Conex nos possibilita elaborar um conjunto de considerações. Elas tangem tanto as motivações que levam o indivíduo a utilizar um sistema de comunicação escrita por computador quanto sua conduta no ambiente virtual em que se insere. Estamos diante de um amálgama de elementos que não devem ser considerados isoladamente, mas ao contrário, de forma complementar.

As entrevistas individuais virtuais revelaram recorrência sobre o sentimento de "solidão" como motivador da procura pelo chat. Tanto com relação à conduta direta do informante, quanto sua opinião sobre o universo a que faz parte. Para Carvalho a solidão sempre existiu na história da sociedade humana, sendo que contemporaneamente esse sentimento passa a se tornar externo, vivido nas relações sociais, e não mais interiormente, como elemento metafísico ou poético (Carvalho, 1995:5). Segundo esse autor:

"A solidão está disseminada em todos os lugares, em alguns casos na sua dimensão crônica, produzindo desamparo, perda e dor, em outros enquanto um sentimento episódico, mas difuso, produzindo uma sensação de sideração, despertença e fragilidade. Ao mesmo tempo, para uma parcela crescente de indivíduos a solidão se apresenta como uma fonte de liberdade e autonomia pessoal, um ideal de ausência de controles ou obrigações de concessão." (Carvalho, 1995:7)

A interação virtual realizada no ambiente de chat mostrou que o comportamento do usuário, em alguns momentos, remete aos conceitos de habitués e flâneurs. Carvalho comenta que os habitués são pessoas que saem sozinhas e costumam freqüentar sempre os mesmos lugares, sendo conhecidas pelo nome e que os flâneurs são andarilhos que saem para paquerar, fugir da insônia, etc. (Carvalho, 1995:218-219). Em alguns momentos os usuários não souberam explicar por quê freqüentam o Chat Conex, mesmo estando insatisfeitos com os conflitos existentes e com a efemeridade do ambiente virtual.

O grupo de amigos formado no Chat Conex (a "turma") sugere ser a solução para o isolamento solitário de seus usuários no mundo off-line. Para Carvalho, a esfera do grupo de amigos é a grande referência de indivíduos cada vez mais ‘solitários’, ganha importância frente à família, principalmente entre os jovens e é "o elemento capital para a compreensão da sociabilidade moderna" (Carvalho, 1995:181).

A "sinceridade" nas relações sociais no chat, manifestada na interação e entrevistas virtuais, é oriunda do tipo de aproximação narcísica que se estabelece entre os usuários. Da mesma forma que a efemeridade (recriação diária do Chat Conex), a "emoção" dos reencontros da turma e os "conflitos" (entre todos os tipos de usuários). A explicação da existência desses elementos deve ser buscada no tipo de grupo social que se estabelece no Chat Conex, onde é forte a presença de indivíduos solitários. Sobre o tipo de grupo que se estabelece, Carvalho nos esclarece:

"As tribos ou grupos fechados do mundo da contemporaneidade são formações fluidas, em que os sentimentos fortes de pertença, êxtase, calor e empatia são vividos intensamente. Os laços que unem seus membros são, porém, fortuitos, imediatos e instáveis. Relacionamentos íntimos sem profundidade, relações quentes e afetivas mergulhadas na incerteza do amanhã ou na artificialidade da exploração lúdica da troca de segredos e fantasias, alegrias e dores. O indivíduo narcísico sobrecarrega, assim, o outro com seu ‘eu’ caótico." (Carvalho, 1995:184)

Carvalho, baseando-se em Sennett, coloca que intimidade e sociabilidade são inversamente proporcionais. O aumento da primeira ocasiona a redução da segunda (Carvalho, 1995:184), que ocorre nos grupos fechados ou "tribos". Neles, "a proteção contra a impessoalidade do modo de vida contemporâneo adquire-se pelo derramamento dos sentimentos pessoais, na vida estreita do pequeno círculo de amigos" (Carvalho, 1995:185). Para o indivíduo solitário, "a solidariedade e a fraternidade são buscadas nas amizades, na ‘entrega amorosa’, no grupo identitário, em suma, em grupos ou indivíduos onde os ‘solitários’ possam barganhar, negociar e, então, permitir concessões aos seus iguais" (Carvalho, 1995:186). Sobre a dificuldade do indivíduo solitário de se relacionar, Carvalho nos coloca:

"Incapacitado de sentir o outro pessoalizado, de se envolver e de se entregar, de sacrificar parte de sua individualidade, o ‘eu’ absoluto individualizado, castrado e fragilizado afetivamente, separa-se do outro do amor. Agora, sua vida solitária e intimista será preenchida e compensada por um outro coisificado – a mercadoria. A tecnologia e o mercado se tornarão seus novos companheiros para a hora de solidão e intimismo. O outro pessoalizado virá em formato digitalizado através das telas, dos fios e dos satélites de órbita baixa. O outro é apenas uma reprodução virtual ou, então, um ente distante que se manifesta e se comunica conosco, incidentalmente, pelos fios e redes invisíveis da moderna tecnologia do fim de século. " (Carvalho, 1995:186-187)

Pode ser feita uma analogia entre o Chat Conex e um "mercado da solidão", lugar onde os indivíduos procuram, como em um mercado, os seus pares. Onde procura-se alguém para "ficar" ou namorar. Esse elemento esteve presente de forma genérica no Chat Conex e foi percebido tanto nas entrevistas individuais, quanto na interação no ambiente de chat. Embora ser tratado diferentemente por usuários regulares e eventuais, representou ser "a finalidade" da interação no chat para ambos os casos.

O segmento de usuários eventuais trata a questão do relacionamento amoroso de forma mais explícita e direta. Ou seja, são usuários que acessam o chat e logo manifestam em suas mensagens o desejo de "conhecer alguém" ("ficar"). De acordo com esse objetivo deliberado, foi observado, nesse segmento, recorrentes condutas de "regionalismo" no chat, o "trânsito entre turmas" e nicks que remetem a elementos da imagem corporal. Os freqüentadores regulares se apegam a um tipo de aproximação mais "sutil" na busca por relacionamentos amorosos no ambiente de chat. Por se conhecerem pessoalmente no mundo off-line, o anonimato é quase inexistente para eles no ambiente do Chat Conex. Neste caso, devem zelar pela identidade e imagem, não optando por aproximações mais efêmeras, escolhendo relações mais furtivas. Ao contrário da situação do usuário eventual, que pode se utilizar de seu completo anonimato neste chat, podendo ser mais direto, espontâneo, não havendo preocupações com censuras dos demais usuários. O comportamento do usuário eventual do Chat Conex é em direção do "ficar", ao passo que o comportamento do usuário regular ruma em direção do "namoro". Essa distinção é feita a partir do "tempo" do contato corporal. Enquanto que no "ficar" busca-se um contato corporal mais imediato, no "namoro" ele é gradual (Schuch, 1998).

A comunidade virtual que acessa o Chat Conex diariamente materializa uma "Rede de Relações" – networks – proposta por Gilberto Velho, especialmente por também ter presente o princípio do anonimato, ser formada em torno de interesses em comum (fuga da solidão e busca de envolvimentos amorosos), ser efêmera e por "atravessar o mundo horizontal e verticalmente" (Velho, 1994).

O surgimento no Chat Conex, a partir das networks, de redes sociais com laços mais estreitos e que "migram" para o mundo off-line nos faz refletir sobre a dinâmica transitória do comportamento dos usuários. Enquanto indivíduos solitários do mundo off-line, estão pouco inseridos em redes sociais. Motivados pela "curiosidade", acessam o chat pela primeira vez e se inserem de forma não deliberada em uma rede de relações mais "sólida". Na medida em que os laços de amizade rompem os limites do mundo on-line, o significado do chat se transforma. Adquire a funcionalidade de mero instrumento de comunicação entre os "amigos da turma" e não mais de "mercado de solidão". Embora continuar sendo o canal para se conhecer novas pessoas.

CONCLUSÃO

A experiência no Chat Conex demonstrou que, embora estarem utilizando um sistema de comunicação no mundo on-line, os indivíduos buscam envolvimentos pessoais, e principalmente amorosos, no mundo off-line. As principais características de um ambiente virtual (anonimato e autonomia exarcebada) facilitam e potencializam a comunicação no chat e o transformam em um excelente lugar para sanar a solidão afetiva, amorosa. No entanto, em toda a pesquisa sempre esteve presente, entre os usuários, a intenção deliberada de envolvimento não somente on-line, mas acima de tudo off-line.

O exemplo do Chat Conex afasta a idéia alarmista de que "logo estaremos nos comunicando exclusivamente por computador". O sistema de comunicação escrita por computador e mediado pela Internet surge, como para os usuários do Chat Conex, como sendo um instrumento capaz de afastar o sentimento de solidão e propiciar experiências amorosas. No entanto, paradoxalmente, afasta apenas o "sentimento de solidão", já que confina os indivíduos em "pequenos grupos" e os afasta do mundo social.

A presente pesquisa foi um esforço de reflexão em torno de uma temática relativamente recente para a sociedade contemporânea: a comunicação escrita mediada pelo computador e feita via Internet. Realizou-se um estudo de caso sobre o Chat Conex. Dada a inovação do tema e do objeto de pesquisa, tratamos de adequar as técnicas de coleta de dados, propondo, assim como em outras pesquisas, a "interação virtual" e a "entrevista individual virtual". A análise das informações coletadas mostrou que a comunicação escrita mediada por computador está envolta em uma série de elementos que devem ser relativizados, especialmente segundo os tipos de usuários desse sistema.

As considerações feitas sobre o exemplo do Chat Conex estão longe de esgotar a discussão sobre o tema. Ao contrário, esperamos ter contribuído no processo de formação do conhecimento social e na formulação de novas questões.

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Notas de rodapé 

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